Quando a pergunta vale mais do que a resposta
Quando a pergunta vale mais do que a resposta
Porque é que as pessoas morrem? Os números acabam? Como é que sabemos que estamos acordados?
Há perguntas de criança que se respondem em três segundos. E há estas, que nos apanham desprevenidos e para as quais não temos resposta nenhuma, nem sequer uma resposta má.
O reflexo, quase sempre, é despachar. Inventar qualquer coisa que sirva, mudar de assunto, ou dizer que se explica quando for mais velha. É compreensível. Estas perguntas chegam sempre no pior momento e nunca vêm sozinhas.
Mas vale a pena resistir ao reflexo, porque estas são precisamente as perguntas boas.
Porque é que perguntam tanto
Entre os três e os seis anos, uma criança faz dezenas de perguntas por dia. Não é para nos testar nem para adiar a hora de dormir, embora às vezes também seja isso. É porque está a montar um modelo do mundo e descobriu que os adultos são a peça que falta.
A parte interessante é o que acontece a seguir. Por volta dos oito ou nove anos, o número de perguntas cai a pique na maior parte das crianças. Não por deixarem de ter curiosidade, mas por aprenderem que existe uma resposta certa e que perguntar demais denuncia quem não a sabe. A escola ensina a responder muito antes de ensinar a perguntar, e o hábito de perguntar, quando não se usa, enferruja.
O que se perde não é a curiosidade. É a coragem de a mostrar.
O problema de responder depressa demais
Uma resposta rápida e completa fecha a conversa. Fica tudo arrumado, ninguém tem de pensar mais, e a criança recebe uma mensagem lateral: as coisas já estão decididas, o teu trabalho é decorá-las.
Uma pergunta devolvida faz o contrário. Abre. E o que se abre não é apenas a conversa, é a possibilidade de a criança descobrir que também ela consegue pensar em coisas grandes.
Nada disto exige preparação filosófica. Exige apenas trocar a primeira frase. Em vez de explicar já, perguntar: e tu, o que achas? Ou: porque é que perguntas isso? Ou ainda, quando não sabemos mesmo: essa é boa, nunca tinha pensado nisso.
Não saber é uma resposta a sério
Muitos adultos evitam admitir que não sabem por recearem perder autoridade. Costuma acontecer o contrário. Uma criança que ouve um adulto dizer que não sabe, e que fica interessado na questão, aprende três coisas de uma vez: que não saber é normal, que se pode pensar em conjunto, e que aquele adulto é de confiança porque não inventa.
É também a diferença entre uma criança que decora e uma criança que pensa. A primeira sabe muitas respostas. A segunda sabe o que fazer quando não tem nenhuma, que é a competência que lhe vai fazer falta a vida inteira.
Quatro coisas que ajudam
Devolver antes de responder. Nem sempre, que seria cansativo. Mas nas perguntas grandes, a primeira palavra deve ser da criança. O que ela responde costuma ser mais interessante do que aquilo que íamos dizer.
Aceitar respostas estranhas sem as corrigir logo. Se uma criança diz que as nuvens são feitas de algodão, cabe perguntar como é que o algodão chegou lá acima. A ideia dela desfaz-se sozinha e ninguém teve de a envergonhar.
Deixar a pergunta em aberto. Nem tudo tem de ficar resolvido antes do jantar. Dizer que se volta ao assunto amanhã é legítimo e ensina que há questões que merecem mais do que cinco minutos.
Usar um livro como terceiro na conversa. Uma história põe a questão fora de nós dois. Já não é o adulto a interrogar a criança, são os dois a olhar para a mesma página, e isso muda tudo no à vontade com que ela discorda.
E quando discordam de nós
Uma criança habituada a pensar vai começar a discordar. Das regras, das explicações, de nós. É desconfortável e é exatamente o objetivo.
Discordar bem aprende-se: com argumentos em vez de birra, a ouvir antes de responder, a mudar de ideias sem se sentir derrotada. É uma competência, e como todas as competências treina-se em segurança antes de fazer falta lá fora, onde já não há ninguém a facilitar.
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