Educação positiva não é dizer sempre que sim

Entre Nós · Outubro

Educação positiva não é dizer sempre que sim

Mãe com o filho ao colo na livraria Cont'Arte

"Eu faço educação positiva, mas o meu filho faz o que quer." Ouvimos esta frase muitas vezes, e quase sempre quer dizer a mesma coisa: alguém confundiu educar com afeto com educar sem limites.

Não são a mesma coisa. E a confusão apanhou boleia de uma boa intenção.

Durante muitos anos, educar foi sinónimo de mandar. "Porque sim." "Porque eu é que sei." A geração que levou palmadas e ficou de castigo no quarto cresceu e decidiu, com toda a razão, fazer diferente. Só que, no salto, muita gente atirou fora o limite ao mesmo tempo que atirou fora o grito. Ficou o carinho, que é ótimo. Desapareceu a fronteira, que faz falta.

Educação positiva não é ausência de fronteira. É pôr o mesmo limite de sempre, mas de outra maneira. A criança não pode bater. Isso não está em discussão. O que muda é o que fazemos a seguir. Em vez de a envergonhar, dizemos o que sentimos e o que esperamos, ao nível dos olhos dela, com uma voz firme que não ataca. O limite mantém-se de pé. O que muda é a temperatura.

O limite não é castigo. E a calma não é permissão.

Há dois enganos, e são opostos. O primeiro é achar que firmeza é a autoridade à antiga: a criança obedece com medo e, sobretudo, aprende a esconder. O segundo é achar que respeitar a criança é nunca a contrariar: a criança passa a mandar e, no meio disso, fica sozinha, porque uma criança de três anos não tem ombros para carregar uma casa.

O ponto do meio é difícil de explicar e ainda mais difícil de fazer. É dizer "não" e ficar. Não ir embora zangado. Não ceder ao fim de dez minutos de choro só para haver paz. Ficar ali, com o não de pé e o colo aberto, as duas coisas ao mesmo tempo.

Um limite dito com calma não magoa uma criança. O que a baralha é nunca haver limite nenhum.

Isto não se faz com voz de manual. Faz-se ao fim do dia, cansados, com pressa e o jantar por fazer. Há tardes em que corre bem e tardes em que corre menos bem, e ambas contam. O que fica com a criança não é a tarde perfeita. É perceber, ao longo de muitas tardes, que pode ser contrariada e continuar a ser amada. As duas coisas cabem no mesmo dia.

O que a criança leva daqui

Uma criança que ouve "não" com calma, e mesmo assim continua a sentir-se segura, aprende cedo uma coisa que lhe serve a vida toda. Aprende que a frustração passa. Aprende a esperar. Habitua-se a lidar com o desconforto em doses pequenas, agora, ao pé de quem gosta dela, em vez de o encontrar todo de uma vez, mais tarde e sozinha.

Os livros ajudam nisto, e não por darem lições. Ajudam porque põem em palavras coisas que são difíceis de dizer, e porque se leem ao colo, que é o sítio onde estas conversas correm melhor.

Capa de Tenho um Vulcão Dentro de Mim
Para a raiva que precisa de um limite

Tenho um Vulcão Dentro de Mim

Míriam Tirado · a partir dos 3 anos

A Andreia tem um vulcão entre o umbigo e as costelas, e quando ele acende, explode. O livro não diz que a raiva é proibida. Diz que bater é. A criança fica com uma imagem para o que sente e com uma saída que não passa por magoar ninguém. É o limite e o afeto na mesma história.

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Capa de Usa as Tuas Palavras
Para dar nome antes de gritar

Usa as Tuas Palavras

Perry Emerson · a partir dos 3 anos

A Violeta resolve tudo com um grito enorme, até descobrir que as palavras funcionam melhor. Antes de um limite pegar, a criança precisa de conseguir dizer o que se passa. Este livro dá-lhe esse vocabulário, e a nós dá-nos paciência para esperar que ele chegue.

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Educar assim dá mais trabalho do que mandar e mais trabalho do que ceder. Custa mais no momento e custa menos para a vida toda. Não temos receita. Temos livros e uma poltrona.

Se andam no meio desta dúvida, e quase todos os pais andam, passem pela loja. Falamos com calma, sem julgar ninguém.

Laura Pepê
Educadora de Infância · Mestre em Educação Pré-Escolar · Cont'Arte

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Quando a pergunta vale mais do que a resposta