"Outra vez essa história?" Porque é que as crianças pedem o mesmo livro até nós o sabermos de cor
"Outra vez essa?"
A pergunta sai antes de pensarmos. A criança trouxe, pela trigésima vez naquela semana, o mesmo livro. Já sabemos qual é a página dobrada, a frase favorita, o final. Lemos quase sem olhar para o texto. E ela continua a ouvir como se fosse a primeira vez, com a mesma atenção, o mesmo riso na mesma parte, o mesmo pedido de "ler outra vez" mal acaba.
Aos adultos, este hábito faz pouco sentido. À criança, faz todo.
Não é teimosia, é trabalho cerebral
A repetição é, possivelmente, a coisa mais incompreendida da infância. Os adultos cansam-se das histórias repetidas porque o seu cérebro, depois de processar uma narrativa, perde o interesse. A criança, pelo contrário, está a fazer um trabalho cognitivo intenso, e cada nova leitura desbloqueia uma camada nova.
Numa primeira leitura, a criança capta sobretudo o enredo geral. Em quem é a personagem. Quem ganha, quem perde. O que acontece no fim. Já tem informação suficiente para perceber, mas falta-lhe quase tudo o resto.
Na segunda, terceira, sétima leitura, o cérebro começa a captar as palavras menos óbvias, as expressões idiomáticas, a estrutura da frase. Numa fase seguinte, a criança fixa-se nas ilustrações e descobre detalhes que ainda não tinha visto. Mais tarde ainda, começa a antecipar palavras, a recitar passagens, a perceber ironia, ritmo, humor.
"A repetição não é o oposto da aprendizagem. É a aprendizagem em ação."
Um estudo da Universidade de Sussex mostrou que crianças expostas repetidamente à mesma história aprendiam significativamente mais vocabulário novo do que crianças que ouviam diferentes histórias com a mesma quantidade de palavras (Horst, Parsons & Bryan, 2011). Por outras palavras: ouvir o mesmo livro dez vezes ensina mais do que ouvir dez livros diferentes uma vez.
A repetição é também afeto
Para além do trabalho cognitivo, há uma dimensão que muitas vezes se esquece. A repetição, na infância, é uma forma de segurança emocional.
O mundo da criança pequena é, em grande medida, imprevisível. Os horários, as pessoas, os lugares, os adultos cansados ou bem-dispostos, tudo isso varia de forma que a criança nem sempre consegue antecipar. Os livros que se repetem são uma das poucas coisas que ela sabe que vai ser igual hoje, amanhã e na próxima semana. As mesmas personagens, a mesma sequência, o mesmo final feliz.
Esta previsibilidade é profundamente reconfortante. Por isso, em períodos de maior stress (a entrada para a creche, o nascimento de um irmão, uma mudança de casa), é comum as crianças voltarem com mais intensidade a livros que já conheciam. Não é regressão. É autorregulação.
E é também, muitas vezes, uma forma de processar emoções difíceis em segurança. Uma criança que pede vezes sem conta um livro sobre medos, separações ou despedidas, está provavelmente a trabalhar alguma coisa por dentro. A história funciona como uma sala de ensaio, onde se pode sentir e voltar a sentir, à distância, aquilo que na vida real é demasiado intenso.
O que se passa quando ouvimos pela milésima vez
Há outra coisa que vale a pena dizer aos adultos: ler a mesma história não tem de ser uma tortura.
Há um truque que muitos pais e educadores experientes descobrem por intuição. Em vez de ler exatamente o mesmo texto da mesma forma de cada vez, é possível ir mudando, devagar, o que se passa em redor do livro.
Numa leitura, pode pedir-se à criança que aponte para o que vê na ilustração. Noutra, pode parar-se antes de uma palavra conhecida para que seja ela a dizê-la. Noutra ainda, podemos fazer perguntas: "O que achas que ele vai fazer?", "Porque é que ela ficou assim?". E noutra, simplesmente lemos como sempre, deixando a criança apreciar o conforto do conhecido.
Esta forma de leitura, em que o adulto se torna leitor mais ativo e participativo, tem nome na investigação: leitura dialógica (Whitehurst et al., 1988). Os estudos mostram que crianças cujos adultos lêem desta forma desenvolvem vocabulário e capacidades narrativas significativamente mais ricas do que crianças que apenas ouvem passivamente.
A boa notícia é que isto funciona melhor precisamente com livros que a criança já conhece. Porque é quando a história já está sabida que sobra atenção para tudo o resto.
E quando o livro escolhido é... estranho?
Quase todos os pais já viveram isto. A criança fixa-se num livro que, do ponto de vista adulto, não tem nada de especial. Ou pior, num livro que nos irrita por alguma razão (a história não tem grande lógica, as ilustrações são feias, a personagem fala de uma forma esquisita).
E é justamente esse livro que ela pede todas as noites.
Vale a pena resistir à tentação de julgar a escolha. Os critérios da criança não são os critérios estéticos do adulto. Ela está, possivelmente, atraída por uma palavra estranha, por uma cor numa página específica, por uma frase que lhe diz alguma coisa que nós não vemos. E é exatamente desse encontro, entre o livro e algo que está a acontecer dentro dela, que nasce a aprendizagem mais profunda.
A pediatra Perri Klass costuma dizer aos pais: o livro favorito da criança é, quase sempre, o livro de que ela precisa. Mesmo quando não percebemos porquê.
A repetição na livraria
Há uma cena que nos acontece quase todos os dias na Cont'Arte. Um pai ou uma mãe chega à porta com uma criança que arrasta um livro pela mão. O mesmo de sempre. Já gasto nas pontas. "Estamos sempre a ler este, ela não quer outro." Pergunta se talvez seja altura de variar.
A nossa resposta costuma ser uma só: não há pressa. A criança vai pedir outro livro quando estiver pronta. Entretanto, este está a fazer todo o trabalho que precisa de fazer.
Variar é bom. Repetir também. E a infância tem espaço para as duas coisas, sem que nenhuma exclua a outra.
Um convite da Cont'Arte
Na Cont'Arte gostamos dos livros que ficam. Aqueles que entram em casa e ficam lá durante meses, pedidos noite após noite, até serem substituídos por outro, que vai fazer o mesmo percurso. Procuramos histórias com profundidade suficiente para suportar a leitura repetida e ilustrações que vão revelando detalhes a cada nova visita.
Se está à procura de um livro novo para uma criança, ou de uma sugestão de quem já leu muitos, venha falar connosco. Conhecemos os nossos livros bem o suficiente para saber quais é que aguentam ser lidos cinquenta vezes. E essa é, no fundo, a melhor garantia de qualidade que conseguimos dar.
Porque os livros mais importantes da infância não são os que se lêem uma vez. São os que se aprendem de cor sem nunca se decorarem.
Referências
Horst, J. S., Parsons, K. L., & Bryan, N. M. (2011). Get the story straight: Contextual repetition promotes word learning from storybooks. Frontiers in Psychology, 2, 17.
Klass, P. (2018). Reach Out and Read: A Pediatric Approach to Early Literacy. American Academy of Pediatrics.
Kuhl, P. K. (2010). Brain mechanisms in early language acquisition. Neuron, 67(5), 713 a 727.
Whitehurst, G. J., Falco, F. L., Lonigan, C. J., Fischel, J. E., DeBaryshe, B. D., Valdez Menchaca, M. C., & Caulfield, M. (1988). Accelerating language development through picture book reading. Developmental Psychology, 24(4), 552 a 559.
Por Laura Pepê
Educadora de infância
Mestre em Pré-escolar

