Birras e Regulação Emocional: o que acontece no cérebro da criança
Era fim de tarde. O supermercado estava cheio. E de repente, no corredor das bolachas, tudo desmoronou.
A criança caiu no chão. Chorou como se o mundo acabasse. Bateu com os pés. Não havia palavras que chegassem, nem distrações que resultassem. E o adulto ali ao lado, cansado, sem dormir bem, com umas olheiras enormes, sentiu a mistura de vergonha, frustração e impotência.
Isto tem um nome: birra. Mas tem também uma explicação, e é muito mais neurológica do que muitos imaginam..
O cérebro que ainda está a construir-se
"A criança pequena não tem ainda a capacidade biológica de regular as suas emoções da forma que esperamos de um adulto."
Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança passa por um processo extraordinário de desenvolvimento. Mas esse processo não acontece de forma uniforme. As regiões responsáveis pelo prazer, pela impulsividade e pelas emoções intensas, localizadas no sistema límbico, estão muito mais desenvolvidas do que as responsáveis pelo raciocínio, pela resolução de problemas e pelo autocontrolo.
Essa região, o córtex pré-frontal, só termina o seu desenvolvimento por volta dos 25 anos (Steinberg, 2008).
Ou seja: quando uma criança de 2 ou 3 anos perde o controlo, não é uma questão de má educação ou de teimosia deliberada. É neurologia.
O que é a regulação emocional e porque é tão difícil na infância
Regular uma emoção significa reconhecê-la, tolerá-la e encontrar uma forma adequada de lhe dar resposta. Parece simples. Mas para uma criança pequena, este processo exige a colaboração de estruturas cerebrais que ainda estão literalmente em construção.
Quando algo frustra profundamente a criança, não conseguir o brinquedo, ter de parar de brincar, sentir fome ou sono, o sistema de alarme do cérebro é ativado. A amígdala, responsável pelas reações emocionais rápidas e intensas, entra em modo de sobrecarga. O resultado é um estado de desregulação: o choro incontrolável, o bater, o gritar.
Nesse momento, o cérebro racional está literalmente offline. Não é possível raciocinar com uma criança em plena birra, porque a parte do cérebro que processa a lógica não está, naquele instante, acessível (Siegel & Bryson, 2012).
Porque é que as birras acontecem mais no fim do dia?
Não é coincidência. O estado de desregulação emocional agrava-se quando a criança está cansada, com fome ou sobrestimulada. O córtex pré-frontal, já pouco desenvolvido, fica ainda mais comprometido pela fadiga. É o fenómeno que muitos pais conhecem bem: a hora do jantar, o regresso da escola, o final de um dia muito cheio, estes são os momentos de maior vulnerabilidade emocional.
Perceber isto não significa aceitar tudo passivamente. Significa que podemos antecipar e criar condições para que as birras aconteçam menos. E quando acontecem, reagir de uma forma que realmente ajuda.
O que ajuda e o que não ajuda
O que não ajuda
Gritar, ignorar ou punir uma criança em plena birra não resolve o problema. Pode até agravá-lo: a criança fica ainda mais desregulada, o sistema de alarme dispara com mais intensidade, e aprende que as emoções intensas são perigosas ou vergonhosas, não que podem ser sentidas e ultrapassadas (Gottman & DeClaire, 1997).
Ceder a tudo para acabar com a birra também não é a solução. A criança precisa de aprender, gradualmente, que a frustração é tolerável e que existe do outro lado.
O que realmente ajuda
"As crianças precisam que os adultos sejam a sua regulação externa até que desenvolvam a capacidade de se regularem internamente."
A resposta mais eficaz é aquilo que Daniel Siegel chama de "co-regulação": o adulto usa a sua própria calma para ajudar o sistema nervoso da criança a regressar ao equilíbrio.
Na prática, isso pode parecer:
Descer ao nível da criança fisicamente e falar com voz calma e pausada;
Nomear a emoção sem julgamento: "Estás muito chateado porque tiveste de parar de brincar.”;
Oferecer presença, não soluções imediatas: às vezes basta estar ali, sem pressa;
Aguardar que a tempestade passe, porque passa sempre.
A regulação emocional aprende-se e os livros ajudam
A boa notícia é que a regulação emocional não é um talento inato. É uma competência que se desenvolve, ao longo dos anos, com as experiências certas e com adultos que acompanham.
E os livros têm aqui um papel que muitas vezes subestimamos.
Quando lemos com uma criança uma história em que a personagem sente raiva, frustração ou tristeza, e vemos como ela atravessa essa emoção, estamos a construir, em segurança e à distância, um mapa emocional. A criança aprende que a raiva é real, que passa, e que há formas de a atravessar. Antes de a ter de gerir na vida real.
Livros como O Monstro das Cores, Odeio tudo tudinho e O montro das cores Doutor das emoções... não são apenas histórias. São ensaios emocionais, oportunidades de reconhecer, nomear e começar a compreender o que se sente por dentro.
Uma nota para os adultos
Quando a criança perde o controlo, é muito fácil que o adulto também o perca. O que não é fraqueza, é também neurologia. O nosso próprio sistema nervoso é contagiado pelo estado emocional de quem amamos.
Por isso, uma das perguntas mais importantes não é apenas "como reajo à birra da minha criança?", mas "como cuido da minha própria regulação emocional?"
Porque a calma não se financia. Transmite-se. E é, talvez, o maior presente que podemos dar a uma criança que ainda está a aprender o que fazer com tudo o que sente.
Um convite da Cont'Arte
Na Cont'Arte, acreditamos que crescer é também aprender a sentir, e que os adultos à volta de uma criança são os seus primeiros e mais importantes modelos emocionais.
Se procura livros que ajudem as crianças a navegar as emoções difíceis, visite-nos. Estamos aqui para ajudar a escolher histórias que fazem sentido, no momento certo, para a criança certa.
Porque as birras passam. O que fica é a forma como estivemos presentes.
Referências
Gottman, J., & DeClaire, J. (1997). The Heart of Parenting: How to Raise an Emotionally Intelligent Child. Simon & Schuster.
Greene, R. W. (2014). The Explosive Child: A New Approach for Understanding and Parenting Easily Frustrated, Chronically Inflexible Children. HarperCollins.
Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2012). The Whole-Brain Child: 12 Revolutionary Strategies to Nurture Your Child's Developing Mind. Delacorte Press.
Steinberg, L. (2008). A social neuroscience perspective on adolescent risk-taking. Developmental Review, 28(1), 78–106. https://doi.org/10.1016/j.dr.2007.08.002
Por Laura Pepê
Educadora de infância
Mestre em Pré-escolar
